sexta-feira, 19 junho , 2026

Brasileira desiste de morte assistida na Suíça para doar corpo aos estudos

Após anunciar que iria para a Suíça se submeter à morte assistida, a médica brasileira Letícia Franco, 36 anos, desistiu da ideia para que seu corpo seja estudado pelo israelense Yehuda Shoenfeld, especialista na síndrome Asia. 

Letícia espera que o estudo ajude a salvar outras pessoas com a mesma doença. Ela convive com os sintomas há oito anos.

O caso de Letícia ganhou repercussão em todo o mundo após ela divulgar em suas redes sociais que viajaria para a Suíça a fim de se sujeitar ao procedimento. A médica afirma que nunca tinha pensado em desistir, mas, naquele dia, sua dor era tão intensa, que já não encontrava forças para continuar.

“A ideia da eutanásia surgiu pelo medo, pela dor constante e por ninguém acreditar em mim. Eu conversei com meus familiares e, no primeiro instante, eles aceitaram: ‘não vamos deixar nossa filha sofrer como está sofrendo”, contou a médica.

Desde que descobriu a doença, em 2010, Letícia foi internada 34 vezes e já testou mais de 20 remédios. Um dos motivos de não ter realizado o procedimento foi porque a mãe desistiu de levá-la. “Mas até eu entendi. Como vou pedir pra minha mãe: ‘mãe, me leva pra morrer?’”, disse.

Casamento cancelado

O israelense Yehuda Shoenfeld liga a síndrome Asia a próteses de silicone e algumas substâncias presentes em vacinas, que, segundo ele, quando em contato com as células humanas, podem provocar uma reação anormal do sistema imunológico. Assim, as células de defesa passariam a agir contra o próprio corpo.

Letícia, sem saber que tinha pré-disposição à síndrome, implantou silicone nos seios aos 17 anos. Aos 28, em 2009, sua vida mudou da noite para o dia. De corredora em provas de rua no Mato Grosso, ela foi parar na UTI. 

“Estava noiva e faltavam apenas três meses para me casar. Acabou o casamento, acabou tudo, porque eu estava na UTI. Quebrei a perna, fiquei toda quebrada, toda inchada, ninguém sabia o que eu tinha. Parecia um monstro de tão feia que a gente fica, entubada, no ventilador”, lembrou.

Sofrimento

Depois da primeira internação na UTI, vieram outras 33. Letícia ficou em coma, teve insuficiência respiratória grave, parou de respirar, precisou ser entubada, usou traqueostomia por quatro meses e só retornou para casa porque tinha o atendimento de homecare.

Nos oito anos da doença, a médica viveu várias fases, entre melhoras e pioras. Durante quase todo o tempo, ela esteve lúcida e pôde estudar a síndrome. Buscou ajuda na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade Paulista (Unip) e até em Israel, com Shoenfeld, mas, até hoje, nenhuma cura foi encontrada.

A síndrome Asia afeta os músculos do corpo inteiro, inclusive o diafragma. O caso de Letícia é único no mundo por reunir quatro doenças autoimunes: dermatomiosite, esclerodermia, lúpus e esclerose múltipla.

A doença já afetou, além do aparelho respiratório e da bexiga, o coração, o pulmão e um rim dela. Letícia já parou de andar por várias vezes, atualmente usa cadeiras de rodas e tem próteses e pinos em vários pontos das duas pernas. Na última vez em que procurou o médico a quem pretende se entregar para estudo, ele afirmou que ela teria somente mais um ano de vida.

Segundo Letícia, a eutanásia não faz mais parte do seu pensamento. Disse ainda sempre ter sido uma pessoa de doação – seja quando pequena, cuidando dos animais na rua, seja como oftalmologista, operando as pessoas gratuitamente. Ela acredita que essa possibilidade de se doar para estudos possa ser sua grande missão em vida.

“Tudo que eu fiz na minha vida foi doação para o próximo e eu acho que não há nada mais bonito do que eu me doar, então, para que todo mundo tenha vida”, finalizou.

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